SILVIO SANTOS, HARRY CAREY E O TREZE...
Mário Vinícius Carneiro*
O título acima mais parece um mote a ser glosado por Zé Limeira, violeiro nascido na Serra do Teixeira em 1886 e falecido em 1954, que ficou conhecido como "o poeta do absurdo", após ter sua obra divulgada por Orlando Tejo. Limeira ficou famoso por improvisar versos onde conseguia reunir Augusto dos Anjos, São João Batista e Pedro Segundo viajando em uma boléia de caminhão pelas estradas da Palestina, carregando uma carga de rapadura para o Egito... Nas cordas de sua viola, tudo era possível. Mas, o que tem a ver o "homem do baú", "Arricarei" (como era chamado pelo povo) e o Galo da Borborema? Improviso "limeiriano", mesmo ? Ao contrário, o fato aconteceu, mas já faz um bom tempo.
Na década de setenta, a TV Tupi ainda era uma potência televisiva, muito embora a Rede Globo já começasse a crescer rapidamente. Em determinado dia da semana, à noite, Sílvio Santos apresentava o "Ele disse, ela disse", um programa completamente diferente do que era exibido aos domingos. Ele recebia convidados para um programa de perguntas e respostas, onde um trecho pode ser visto neste link: http://www.youtube.com/watch?v=SEreU0UIi3g . Certa noite, foi perguntado a um convidado qual fora o goleiro russo da Copa do Mundo de 1958, dando como uma das alternativas o nome de Yashin, a "aranha negra". A pessoa a quem Sílvio perguntara respondeu que fora "Yashin, o maior goleiro do mundo".
Após declarar que estava certa a resposta, o apresentador completou: "Sem dúvida, dizem que foi um dos maiores goleiros do mundo. Mas o maior goleiro que eu já vi jogar foi Harry Carey, do Treze de Campina Grande !". E continuou a apresentar o programa... Aquela declaração de Sílvio foi publicada, ainda naquela semana, no Diário da Borborema, sendo inclusive comentada pela Imprensa local.
Quem se der ao trabalho de procurar nos arquivos do DB, certamente irá achá-la... Contudo, uma pergunta ficou sem resposta naquela época: como Sílvio Santos deu aquela resposta, se o Treze até então nunca jogara no Rio de Janeiro ? Como ele vira aquele goleiro jogar ? Sempre procurei saber esta resposta... Quando fizemos o trabalho de pesquisa para o "Livro do Treze", durante quase dois anos procurei localizar Harry Carey, que sumira da mídia e ninguém sabia do seu paradeiro. As tentativas de encontrá-lo dão motivo para outra crônica... O certo é que, em 1999, conseguimos localizá-lo, morando no distrito do Planalto, em Mataraca (PB), onde fizemos uma entrevista que foi publicada no Jornal da Paraíba. Na entrevista, Harry contou-me que o Madureira quis comprar seu passe em 1956. A direção do Treze falou que ele era "inegociável". Com raiva, Harry abandonou o clube foi para Catende (PE) trabalhar numa usina de açúcar. O Madureira, tempos depois, o encontrou por lá e o levou para o Rio de Janeiro, tendo jogado alguns amistosos por este clube. Depois, foi repassado ao Bangu, onde fez algumas partidas, sempre de caráter amistoso, pois o problema com o Treze ainda permanecia.
O ex-arqueiro alvinegro relatou que, no espaço de tempo que passou no Rio de Janeiro, era conhecido entre os torcedores do Bangu como "Harry Carey, um goleiro que veio do Treze de Campina Grande". Como Sílvio Santos é carioca, gostava de futebol, inclusive freqüentando estádios (diz ser torcedor do Fluminense), certamente deve ter visto mesmo Harry Carey jogar e memorizou a expressão. Ou alguém acha que ele iria passar o ridículo de inventar a história em rede nacional ? Aí, seria algo digno da obra de Zé Limeira...
Nenhum comentário:
Postar um comentário