sexta-feira, 3 de junho de 2011

UMA FERA DOMADA.

     Serenidade é uma palavra difícil de associar à imagem de Mike Tyson, ex-campeão mundial de boxe, lenda do esporte, conhecido pela violência dentro e fora dos ringues. Talvez por isso "Cara a cara com Tyson", do Animal Planet, que estreia no Brasil em 16 de junho, às 23h, seja fascinante. O programa em seis capítulos, que o próprio ex-lutador de 44 anos define como um híbrido entre reality show e documentário, mostra a sua busca pela paz consigo mesmo.
Oficialmente, o foco da atração é a paixão de Tyson por pombos de corrida. Mas o tema verdadeiro é a reconstrução do ex-pugilista. Depois de chegar ao apogeu da fama e de descer ao inferno, ele perdeu uma filha, a maioria dos amigos da época em que era rico, entrou em depressão e engordou. Sua reaparição mostra um homem em busca da regeneração. Virou vegetariano, emagreceu, voltou a se exercitar - mas não a lutar.
- Quando me olho no espelho vejo um cara danificado e que, aos poucos, tenta juntar os cacos e se reconstruir - declara.
Vestindo camisa polo verde, calça jeans e tênis novos, Tyson entrou sorridente no salão do hotel de Nova York, onde o programa foi apresentado à mídia internacional. Mas sua figura nunca perde totalmente um traço ameaçador. Quando começa a gesticular com mais velocidade, dá para pressentir o pavor de ter que enfrentá-lo.
- Sou o mesmo homem. Só não faço mais as mesmas coisas, mas não mudei. Se você me apertar demais, vou morder. Mas não quero viver a mesma vida de antes - diz.
O programa nasceu quando um produtor do Animal Planet descobriu que o ex-lutador havia se reaproximado dos antigos amigos de Jersey City (no estado de Nova Jersey) para treinar pombos de corrida. Tyson voltou à antiga paixão da infância pobre e marginal no Brooklyn.
- Eu era gordo, usava óculos, tinha roupas horrorosas, os colegas implicavam comigo - conta ele, relatando como o bullying o afastou da escola e o aproximou de garotos que se dedicavam às corridas de pombos: - Infelizmente, nunca voltei para a escola, mas me apaixonei pelos pássaros.
O primeiro murro da vida de Tyson foi desferido aos 13 anos, quando um garoto mais velho degolou um de seus pombos. Foi assim que tudo começou. O ex-pugilista caiu na marginalidade dos conjuntos habitacionais barra-pesada e acabou preso numa instituição para menores infratores. Lá conheceu o maior ídolo da história do boxe, Muhammad Ali. Durante uma visita, Ali despertou no então adolescente o desejo de ser respeitado, como ele conta no primeiro capítulo da atração.
O garoto realizou seu sonho, tornando-se o mais jovem campeão dos pesos-pesados aos 20 anos. Mas nem toda a fama foi desejável: Tyson foi condenado à prisão por estupro em 1992 e escandalizou o mundo do esporte ao arrancar, com uma mordida, um pedaço de uma orelha de Evander Holyfield, em uma luta em 1997.
- Eu era esse machão, pura testosterona, não admitia que brincassem comigo. Eu estava sempre com raiva de quem fazia piadas a meu respeito, eu me levava a sério demais - lembra Tyson.
Agora, ele diz ter aprendido que a vida é curta e totalmente imprevisível, que perdeu a ilusão de controlar os acontecimentos:
- O que a vida me der eu tenho que encarar. Se Deus quiser, terei condições de enfrentar. Se eu não suportar, estou acabado.
De todos os incidentes que marcaram sua vida, o que parece ser o mais perturbador é a morte da filha Exodus, aos 4 anos, em um acidente doméstico com uma esteira ergométrica, em 2007:
- Pensei que minha vida acabava ali. Mas depois me dei conta de que minha vida estava recomeçando, e agora tenho que tentar dar bons exemplos e não viver da maneira como vivia no passado.
Tyson voltou a se casar e teve mais dois filhos, com quem vive agora em Las Vegas.
- Tenho prioridades diferentes, tenho filhos para criar. Não tive bons pais, mas vou quebrar esse ciclo, não vou ser um pai drogado, bêbado, incapaz de proteger os filhos - avisa.
O português Mário Costa, dono do ringue em Jersey City onde Tyson iniciou a carreira, é um dos que realmente o acompanharam a vida toda. Ele conta que os problemas do então boxeador com drogas foram se agravando e que os amigos antigos tentaram intervir, mas os empresários não deixavam.
- Não queriam que ele parasse de lutar. Se não fosse pela ajuda dos psiquiatras e das clínicas de reabilitação, ele provavelmente teria morrido - diz Costa.
O ringue de Mário Costa, com pintura descascada e móveis velhos, entrega a idade, mas o dono diz que Tyson não quer mudanças.
- É muito bom estar com meus amigos, me sentir confortável e desinibido, saber que não tenho que me preocupar em ser julgado pelos outros - afirma o ex-lutador.

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